Toc – toc – toc – toc.
A torneira da cozinha marcava um blues frenético, e ele acordara com o ritmo. Rumara perdidamente até o cômodo, para acabar com o barulho irritante e enfim poder prosseguir seu sono, mas o pernilongo que encontrara não lhe permitia tal feito.
Buscou pela casa o inseticida. Obra da faxineira ou da própria inteligência dos insetos: não encontrou o veneno. Não havia chinelas ou travesseiros por perto. Se voltasse para o quarto, perderia o chato de vista – e ele com certeza o acompanharia, seguindo-o de maneira astuta e invisível. Isso lhe deixava neurótico, e suas palmas esquisitas não conseguiam atingir de maneira eficiente o tal mosquito.
Não havia encontrado a solução ainda. Exercia com maestria sua habilidade estrábica de buscá-la com um olho enquanto grudava o outro no bicho voador.
Sua tontura terminou-se assim que chegou à despensa, encurralado pelo pernilongo. Na mais superior das prateleiras, lá estavam as inúmeras inúteis imprestáveis agendas que havia ganhado nos últimos anos. Todas em branco. Todas com logotipos em sua capa, que oscilavam bastante entre escritórios de advocacia e papelarias, até de academias.
Sem perder o monstro de vista, nas pontas dos pés, alcançou duas das agendas empilhadas. Desferiu o golpe fatal: o pobre pernilongo estava agora em ruínas nas capas de dois livros em branco.
Voltou para sua cama.
Toc – toc – toc – toc.
Embalou em um blues aquático seus sonhos perdidos.
* * *
Caros leitores, se vocês ainda existem:
Desculpem-me pela ausência, apesar de eu ainda estar produzindo de maneira offline, faz tempo que eu não publico nada. Aqui vai mais um conto para o plantel de textos, mas eu já tenho engatilhado uma ou outra crônica, a.k.a. filosofia de botequim (no meu caso, assim disse Igor) para postar aqui nos dias que estão por vir.
Espero que continuem frequentando, mesmo que pouco, o blog.
Obrigado!
Publicado por Vec ;) em 3:01 AM ¦
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Quarta-feira, Março 04, 2009
La vie en bleu
Ele foi apresentado à ponte quando estava desempregado, bêbado e barbudo. Já passara por ela diversas vezes, mas sempre refrescado pela brisa do ar-condicionado de seu sedã.
Porém, após ver-se em uma situação financeira irrecuperável, era a ponte que lhe, então, lhe refrescava em dias ensolarados.
Conheceu por lá o truco bem-trucado; teve certeza que a cachaça era mais valiosa que um Scotch; e aprender que todo mendigo deve possuir um cão.
Mas foi num daqueles dias de ressaca semanal que ele estacionou pela última vez sua carriola de lixo naquela aconchegante garagem exclusiva da ponte.
Não era de seu costume pedir esmola. Naquele dia, no entanto, havia se animado para isso. Determinado a garantir seu dia de maneira honesta, dirigiu-se a beira da avenida mais próxima. De rabo de olho, observava se não viriam viaturas visando aprisionar um pobre pedinte.
A chuva começava recentemente a chorar o mormaço vespertino. Ao escorrerem as primeiras gotas em sua face, ele havia se limpado pela primeira vez em dois meses de miséria – culpa da ponte.
E, num golpe de ironia da banalidade, ele bateu ao vidro do primeiro carro que avistou no sinal. Já havia visto esse carro outras vezes. Em seus pensamentos profundos, sentia uma certa atração pela minivan negra que abordara, por isso notara-a tanto. Seu proprietário deveria trabalhar nos arredores.
O vidro não teria baixado se sua ex-mulher não estivesse ao volante. Ele havia separado-se dela logo antes de ser atropelado (em seu sentido quase literal) pelo mercado de ações.
Relutante, ela o convidou para entrar. Acolheu-o. E o ciclo da vontade quase-injusta completava-se mais uma vez.