Os períodos de festas seriam muito melhores se não fossem exatamente iguais todos os anos. A não ser o bracinho do bonequinho de neve hi-tech recém inventado que se mexe, é sempre aquela mesmíssima decoração reaproveitada no shopping, dedos calejados pela troca de lampadazinhas chinesas que sempre queimam, cueca branca pra dar sorte e aquela tia infalível que sempre aparece com uma sementinha de romã pra chupar e alojar - nojentamente - na carteira.
Não, eu não odeio o natal. E muito menos o Réveillon. As datas, o que comemoram e a proximidade em que se realizam ainda tocam magicamente a criança que reside em meu coraçãozinho. O problema é que o ser humano capitaliza tudo: comida, amor, paz - e as festinhas de final de ano.
Um tempo atrás eu tive o prazer de estar nos Estados Unidos num período pré-festas. Este, inclusive, é o pior: os preços ainda estão exorbitantes. Não sei se visitei os locais equivocados, mas, por lá, o frenesi era um pouco menos evidente que o que observamos em nossas terras. A não ser pelos copos de café (não vem ao caso a "marca") decorados com um belíssimo "Happy Holidays", os shoppings não davam a mínima pra decorações e afins; nem os parques temáticos estavam alarmantemente transformados com esse período que se aproxima. Eles devem ter se cansado de tanta vermelhidão.
De volta às terras verde-amarelas, gostaria de ser acalmado com a esperança de que um dia um abraço e reais manifestações de afeto e carinho substituam a imagem daquele Papai Noel lado-a-lado com a oncinha mais famosa do Brasil. Porém, ser humano que sou, também adoro ganhar presentes. Esse é nosso problema.
Como não posso presentear os leitores deste blog com alguma lembrancinha simples em agradecimento pela paciência, tolerância e compaixão com este pobre estudante neste ano recém-completado da página, e em virtude das tais festas-tema-do-texto-de-hoje, deixo aqui meus votos de tempos mais felizes aos que não os tiveram neste ano; e aos que tiveram, que continuem plantando sorrisos pelo mundo afora. Pode parecer clichê - eu adoro clichês - mas cada ação que fazemos hoje pode representar muito daqui a alguns anos. E assim, contribuímos para o nascimento de um ser humano mais valioso.
Muito obrigado!
Publicado por Vec ;) em 11:42 PM ¦
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Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
“Retórica dos namorados...”
Logo após assistir ao primeiro capítulo da nova minissérie da Rede Globo, “Capitu”, animei-me a dissertar sobre esta nas linhas levemente críticas que seguem.
Baseado – literalmente – no romance não-homônimo de Machado de Assis (“Dom Casmurro”; talvez este um dos que mais admiro em toda nossa cartilha literária), a minissérie e a equipe que a produz realmente mostram a vasta compreensão da obra e de sua intenção.
Magistralmente, o diretor Luiz Fernando Carvalho apresentou ao Brasil nesta pré-madrugada de terça-feira uma burlesca visão fantasiosa deste roteiro temporalmente realista. Recheado de visões sórdidas, recursos teatrais, desenhos incríveis e igualmente rara fotografia, a memória do narrador machadiano mostra-se como é qualquer memória humana: regida pelo portador, disforme e atemporal.
A atípica riqueza visual observada é tão vistosa até então que os devaneios simbólicos – e presentes no livro – do narrador muitas vezes resumem-se em breves recursos imagéticos: vide a tatuagem no braço da jovem Capitu ou uma sombra de Bento (em sua fantástica idade adulta) que vaga pelas cenas como se observasse minuciosamente cada detalhe da história.
Faço meus votos que essa série permaneça dessa maneira encantadora até seu suspiro final. Assim, majestosamente, Carvalho irá atingir um patamar artístico ainda ausente na sala de troféus da televisão brasileira. E eternizará, tão necessariamente modernos, aqueles “olhos de ressaca” que desde que imortalizados por Machado, seduzem o Brasil.