Toc – toc – toc – toc.
A torneira da cozinha marcava um blues frenético, e ele acordara com o ritmo. Rumara perdidamente até o cômodo, para acabar com o barulho irritante e enfim poder prosseguir seu sono, mas o pernilongo que encontrara não lhe permitia tal feito.
Buscou pela casa o inseticida. Obra da faxineira ou da própria inteligência dos insetos: não encontrou o veneno. Não havia chinelas ou travesseiros por perto. Se voltasse para o quarto, perderia o chato de vista – e ele com certeza o acompanharia, seguindo-o de maneira astuta e invisível. Isso lhe deixava neurótico, e suas palmas esquisitas não conseguiam atingir de maneira eficiente o tal mosquito.
Não havia encontrado a solução ainda. Exercia com maestria sua habilidade estrábica de buscá-la com um olho enquanto grudava o outro no bicho voador.
Sua tontura terminou-se assim que chegou à despensa, encurralado pelo pernilongo. Na mais superior das prateleiras, lá estavam as inúmeras inúteis imprestáveis agendas que havia ganhado nos últimos anos. Todas em branco. Todas com logotipos em sua capa, que oscilavam bastante entre escritórios de advocacia e papelarias, até de academias.
Sem perder o monstro de vista, nas pontas dos pés, alcançou duas das agendas empilhadas. Desferiu o golpe fatal: o pobre pernilongo estava agora em ruínas nas capas de dois livros em branco.
Voltou para sua cama.
Toc – toc – toc – toc.
Embalou em um blues aquático seus sonhos perdidos.
* * *
Caros leitores, se vocês ainda existem:
Desculpem-me pela ausência, apesar de eu ainda estar produzindo de maneira offline, faz tempo que eu não publico nada. Aqui vai mais um conto para o plantel de textos, mas eu já tenho engatilhado uma ou outra crônica, a.k.a. filosofia de botequim (no meu caso, assim disse Igor) para postar aqui nos dias que estão por vir.
Espero que continuem frequentando, mesmo que pouco, o blog.
Obrigado!
Publicado por Vec ;) em 3:01 AM ¦
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Quarta-feira, Março 04, 2009
La vie en bleu
Ele foi apresentado à ponte quando estava desempregado, bêbado e barbudo. Já passara por ela diversas vezes, mas sempre refrescado pela brisa do ar-condicionado de seu sedã.
Porém, após ver-se em uma situação financeira irrecuperável, era a ponte que lhe, então, lhe refrescava em dias ensolarados.
Conheceu por lá o truco bem-trucado; teve certeza que a cachaça era mais valiosa que um Scotch; e aprender que todo mendigo deve possuir um cão.
Mas foi num daqueles dias de ressaca semanal que ele estacionou pela última vez sua carriola de lixo naquela aconchegante garagem exclusiva da ponte.
Não era de seu costume pedir esmola. Naquele dia, no entanto, havia se animado para isso. Determinado a garantir seu dia de maneira honesta, dirigiu-se a beira da avenida mais próxima. De rabo de olho, observava se não viriam viaturas visando aprisionar um pobre pedinte.
A chuva começava recentemente a chorar o mormaço vespertino. Ao escorrerem as primeiras gotas em sua face, ele havia se limpado pela primeira vez em dois meses de miséria – culpa da ponte.
E, num golpe de ironia da banalidade, ele bateu ao vidro do primeiro carro que avistou no sinal. Já havia visto esse carro outras vezes. Em seus pensamentos profundos, sentia uma certa atração pela minivan negra que abordara, por isso notara-a tanto. Seu proprietário deveria trabalhar nos arredores.
O vidro não teria baixado se sua ex-mulher não estivesse ao volante. Ele havia separado-se dela logo antes de ser atropelado (em seu sentido quase literal) pelo mercado de ações.
Relutante, ela o convidou para entrar. Acolheu-o. E o ciclo da vontade quase-injusta completava-se mais uma vez.
Publicado por Vec ;) em 9:23 PM ¦
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Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009
Sinta-se à vontade
Carlos copiou de Antônio, que copiou de Renata, que copiou de Marcelo. Surge um Best-Seller.
Não vejo algo tão injusto quanto julgar algum caso de plágio. Se a humanidade resolver se auto-processar por todos – e mais bizarros – casos de direitos autorais, surgirá o mais infindável e inútil caso na história das instituições jurídicas.
Pois, ora. Como diriam os sociólogos, é um instinto humano valer-se da cópia para adquirir conhecimentos. Sem o plágio, não teríamos desenvolvido linguagem, não teríamos aperfeiçoado nossas tecnologias, não buscaríamos algo melhor do que o do vizinho. Seria então o famoso “Ctrl+C” um dos pilares da nossa sabedoria avantajada?
Dirão os chatos: “Não se deve generalizar, existem coisas que não são dignas de receberem patentes passíveis de julgamento”. Lógico que este desocupado está correto, sinto muito em atestar isso. Porém, sabe-se que existem patentes inúteis já registradas enquanto inventos realmente sérios aguardam direitos semelhantes.
Não julgo uma patente necessária para se atingir sucesso em algo. Vide empresas de software que, ao abrirem o código de seus produtos, cresceram de maneira exorbitante por uma propaganda espontânea e natural.
Eu, por exemplo, nunca soube que Joe Satriani tinha gravado uma faixa que, como o guitarrista afirma com tanta veemência, foi copiada pelo Coldplágio, desculpe, Coldplay. Mas também poucos sabiam que o próprio Joe também pode ter copiado sua melodia de Cat Stevens, aquele, de “Father and Son”. O Balanço geral é simples: o plágio de Coldplay apresentou Satriani a centenas de pessoas; e o plágio de Satriani, por sua vez, apresentou Stevens a milhares destas.
Devemos saber que a liberdade ensina. E nos aproveitarmos dela para crescer. Como seria se o guitarrista em questão tivesse se aproveitado da canção da banda inglesa para que, tocando juntos, divulgasse seu próprio tema?
Só lhes peço que, se citarem este texto em algum lugar, por favor digam a fonte. Sabe como é, essa tecnologia de hoje.
Publicado por Vec ;) em 11:01 PM ¦
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Quinta-feira, Janeiro 29, 2009
Prefácio
Minhas palavras aqui hoje serão bem mais sóbrias e subjetivas. Talvez seja por isso que não anseio fartura de comentários, apenas a compreensão dessa história. Umas mais e outras menos profundas, mas apena uma por completo. Assim, é justo lhe pedir perdão por ser obrigado a dedicar este conto a uma pessoa em especial. Bem, vamos ao texto.
--x--
Sob o olhar das estrelas
Ela sentia no peito uma dor que há muito não a incomodava. Era um aperto doloroso, quase que insuportável, que provocava uma angústia incontrolável.
Caminhava perdida pela casa, de cômodo em cômodo, não encontrando um lugar confortável para descansar sua tensão. A visão da porta dos fundos lhe fez um convite a sair.
Buscou no imenso quintal bagunçado um canto aconchegante. Encontrou-o encostado ao muro, ao lado de um belo arranjo de flores. O piso era um tapete verde que a garoa havia acabado de orvalhar.
Sentou-se e respirou fundo. Inexplicávelmente, seu coração, aos poucos, diminuía seu ritmo frenético.
Era mais calma. Era somente ela.
O arranjo de copos-de-leite que ladeava o espaço escolhido lhe dava uma paz enquanto sua mente esvaziava-se de preocupações.
Mais uma vez, sentiu-se única.
Realizou por completo sua tranquilidade quando se voltou para os céus: as belíssimas estrelas que encobriam seu olhar sorriam, para sua maravilha, enquanto brilhavam como se quisessem passar-lhe uma mensagem.
Quase que conseguiram. Por um momento, ela pensou ter lido algo naquele brilho.
Porém, como se um pensamento surgisse em sua mente instantaneamente, já sabia que não valera à pena sofrer. A felicidade se encontrava próxima na longa vida que a aguardava a partir de então.
Publicado por Vec ;) em 3:52 PM ¦
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Terça-feira, Janeiro 27, 2009
Cuidado ao rebobinar
Antes de cursar qualquer faculdade, a escola da vida especializa o ser humano na arte de procurar pêlo em ovo. Com o perdão do clichê.
Cresceram absurdamente o número de sites, páginas, artigos, matérias do Globo Repórter ou discussões em programas inteligentes de auditório (se é que existem) que retratam como a imprensa, a propaganda, os filmes, a música, e outros meios face-to-face tentam transmitir subliminarmente alguma mensagem regida pelo demônio e seus comparsas.
Ora, me pergunto até hoje como a Xuxa conseguiu compor letras que, tocadas ao contrário, evocam os mais malignos seres. Alguém aqui já tentou escrever algo ao contrário? Inclusive, rodando de trás pra frente, a um virgula quatro vezes mais lentamente que a velocidade comum, parando em momentos oportunos e usando LSD antes de buscar as tais mensagens, encontram-se recados demoníacos até no “Pai Nosso que estais no céu”.
Sendo um grande empresário, qual seria meu interesse em ocultar símbolos fálicos em minhas logomarcas? Ou, o que seria a humanidade sem as letras póstumas de Paul McCartney? Pobre McCarney, mataram ele. E pobre John Lennon, que tentou avisar-nos inúmeras vezes que seu colega havia morrido e não lhe demos ouvidos e olhos, quem sabe até nariz. Pausa para procurar algum tipo de cheio de sangue na capa de Abbey Road, com licença.
Me pergunto que impacto faria em nossas vidas seguir Dorothy em suas aventuras pelo mundo de Oz acompanhados de Roger Waters e alguns acordes místicos.
É arte se metendo em arte. Bedelho metendo em bedelho – dos outros.
Cuidado, leitor. Talvez você encontre uma pista sobre sua própria morte num disco dos Menudos.
Publicado por Vec ;) em 9:55 PM ¦
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Domingo, Janeiro 25, 2009
Quero ser Obama!
Não, não é pelo poder que ele carrega consigo. Tampouco pela popularidade histórica do tal homem.
O que causa o fenômeno “Obamístico” é o estilo que o recém-empossado presidente dos Estados Unidos, involuntariamente, prega pelos cinco continentes. A imprensa o trata como mais bem-encorpado que Schwarzenegger; mais chic que Lagerfeld; melhor dançarino que Baryshnikov.
Ora, o homem é um político! O Lula é um político! É, o Lula.
Bem.
Certo domingo, este fenômento estilístico comprometeu três matérias daquela revista eletrônica que abençoa nossos fins-de-semana: a primeira, levava todos os pratos elegantemente escolhidos para o banquete da posse do presidente a um barracão de escola de samba; a segunda, mostrava tomadas inúteis de uma série de pessoas que imitavam uma dança-bundalelê que o homem realizou em um baile (se pudesse voltar no tempo, hein, Barack?); a terceira, é claro, era uma opinião da eterna sempre-correta Glória Kalil sobre as vestimentas da esposa do presidente.
Pouco a pouco, seremos tomados pelo mito. Cantaremos "O-bah-ma senhor, O-bah-ma senhor..." nos aniversários. Pediremos um cafezinho "Obama" sem chantily na padaria da esquina. E Chuck Norris terá encontrado um adversário a altura para competir com ele no campeonato de soletrando do "Caldeirão do Obama".
Logicamente, ser presidente dos Estados Unidos é expor-se de maneira boa ou ruim aos olhares de cada ser humano na face da Terra. Mas caro leitor, sou obrigado a ressaltar-lhe que estamos perdendo o limite entre a persona celebridade e a persona política.
Oscilando entre rabugentices dos mais velhos (“Não existe mais seriedade como antigamente, bah.”) e o delírio dos jovencitos (“Obama, cadê você...?”), vale a pena desligar a televisão e correr para o cinema. Depois de John Malkovich, todos querem ser Barack Obama.
Publicado por Vec ;) em 10:11 PM ¦
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Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
A tal troca
Havia dormido a tarde toda. Acordara animado como nunca, era finalmente o dia da consumação de seu namoro. O cinéfilo ardoroso havia confessado sua paixão há duas semanas, para a bela namorada arduamente conquistada. E finalmente, teria a oportunidade de convencê-la de que os melhores filmes estão no passado – e não são como “Um amor para recordar”.
Marcaram a maratona de filmes logo após a novela das oito – ninguém tirava a televisão de sua mãe antes disso – para que durasse por toda a madrugada. Aquele sono durante a tarde tinha sido propositalmente planejado, então, e sugerido à garota.
Como o tempo não lhes permitiria muitas exibições, decidiu-se por escolher filmes de gêneros diferentes, cultuados pela crítica e por cinéfilos mundo afora. Claro que se sentia um pecador por omitir desta lista nomes como Hitchcock, David Griffith, Coppola, Tarantino, Scorsese, Woody Allen (em sua fase boa - obviamente), entre muitos outros, mas seu orgulho dava-lhe a certeza de ter escolhido as obras corretas para a iniciação da menina. Foram elas: “Quanto mais quente melhor”, comédia estrelada por Marilyn Monroe; “2001 - Uma odisséia no espaço”, a drogada ficção de Stanley Kubrick; e, para garantir a noite, não pôde esquecer-se de “Cidadão Kane”, suspense de Orson Welles considerado por muitos críticos como o melhor filme já produzido até hoje.
Claramente não poderia prever a reação de sua namorada ao assistir a tais produções, mas arrepiava ao pensar que poderiam ser seduzidos pelo beijo Marilyn em uma de suas cenas mais marcantes, ou que chorariam juntos com a maravilhosa alternância de gerações criada por Kubrick no final de sua obra. Afinal, sempre tinha passado esses momentos sozinhos.
Olhou para o relógio, faltavam ainda trinta minutos até a hora marcada. Estava impaciente.
Tinha esperado por esse momento há tanto tempo, não era justo que continuasse aguardando. Ligou para o telefone da namorada, que aparentava estar desligado. Em sua casa, também não atendia.
Aquela meia hora havia passado e a garota ainda não havia chegado. Sua frustração já se transformava em irritação. “Não é possível...” – pensava – “... ela nunca se atrasa, por que hoje, justo hoje?”. Sua menoridade proibia-o de ir buscá-la de carro em sua residência.
Uma hora depois e sua decepção era devastadora: ela claramente não viria mais. Não a perdoaria nunca, nunca.
Como cinéfilo que é, no entanto, cumpriu sua promessa: assistiu à tríade clássica escolhida. Vibrara a beleza da inteligência cinematográfica pela terceira, quinta e segunda vez.
Eram oito horas da manhã quando terminou. Foi acordado as onze pela ligação da namorada. “Que é?” – perguntou.
“Amor, mil perdões. Segui seu conselho, fui dormir à tarde. Mas embalei no sono até hoje de manhã.” – implorava a garota.
“Não me subestime, ninguém dorme tanto.” – respondeu, rispidamente, o rapaz.
“Mas amor, é que eu fui dormir um pouco mais tarde do que o combinado, hã, bem mais tarde. É que “tipo”, não consegui perder a sessão de “The Hills” que passou à tarde.”
***
A tempo, já que o assunto de hoje foi cinema.
Confira clicando aqui os indicados ao prêmio Framboesa de Ouro 2008/09.
Rapaz, isso é mais justo que o Oscar!
Publicado por Vec ;) em 1:37 AM ¦
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Quarta-feira, Janeiro 21, 2009
Bagunça 2.0
Caros leitores, é hoje. Ou melhor, foi ontem de madrugada.
Quem me acompanhava pela jornada noturna percebeu certos desarranjos por aqui.
Agora após completamente reajustado e pronto, tenho orgulho de apresentar-lhes o novo layout deste abandonado blog. A intenção da mudança é simples: indicar o início de uma nova era de postagens, novos estilos de textos e notícias surgindo por aqui e, finalmente, repaginar um pouco o que já tinha se tornado um pouco enjoativo.
O tão cansativo azul foi substituído por um caloroso vermelho, quase fúcsia, que torna a leitura e contraste mais agradáveis durante as leituras; a nova logomarca indica um tom mais divertido que virá nos próximos textos e posts de agora em diante; teremos uma enquete na qual você, leitor, sempre será bem vindo a votar quando entrar.
Novas músicas, nova época.
Muito obrigado aos que nos acompanham desde sempre e ajudam a divulgar este espacinho perdido na blogosfera!
Publicado por Vec ;) em 6:45 PM ¦
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"...burning out his fuse up here alone..."
14 anos de espera e...
Não, eu não fui no show. Sim, eu gostaria, e muito, de ter ido.
Porém tive o desprazer de assistir à frustrante fersão "semi-live" apresentada pela Globo no sábado. Foi quase um Milli Vanilli dos shows ao vivo. (Revoltante, percebe-se).
Mas deixo por aqui aquele "quero mais", se o gênio ainda seguir carreira, quem sabe daqui a alguns 15 anos...
Melhor momento do show, o "bis" cortado pela Globo.
"... fly awaaay..."
Publicado por Vec ;) em 1:01 AM ¦
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Segunda-feira, Janeiro 19, 2009
Em tempos de Geraldo Vandré?
Tenho um tio aposentado. Ele, um bon-vivant da sociedade moderna, não desperdiça seu tempo. Passa-o deliciosamente praticando atividades inúteis.
Caro leitor, não pense que o critico; eu faria o mesmo.
Depois de ter se cansado de completar uma árvore genealógica interminável de nossa querida família, decidiu dedicar-se ao hobby saudável da digitalização de músicas.
Munido de um toca-discos digital e quase mil LPs do acervo familiar, mais uns plugues aqui e acolá, transforma em arquivos crus horas de músicas gravadas nos raros vinis.
É uma idéia bastante boa, apesar do trabalho que consome. Entretanto, como aconteceu com a árvore genealógica, creio que esta rapidamente irá se tornar uma atividade secundária em sua vida, coisa que só fará quando estiver realmente disposto a ouvir cada faixa, isoladamente, converter-se em bytes amargos em seu laptop.
Até em nosso valioso tempo de ócio, a rapidez de nosso mundo decide intrometer-se. São horas, dias, anos de espera para tais minutos vazios chegarem. No entando, quando surgem, a fartura de opções para aproveitá-los tornam-lhes cansativos e fúteis. Quase que, com o perdão do infeliz trocadilho, inaproveitáveis.
Talvez esta nova atividade de meu tio aposentado seja trocada por outra menos (ou, quem sabe, até mais) saudável. Porém, o fato é que existe essa troca. Não estamos em época de completar tarefas; e sim, de realizá-las de forma rápida ou simplesmente não executá-las. Ninguém quer ficar obsoleto antes da hora. É uma modernização do tempo: quem não se adapta, não aproveita. E viva o darwinismo temporal.
Até que os curtas-metragens substituam os longas e obriguem-nos a assistir mais de cinco filmes por dia, ou as músicas reduzam-se a menos de um minuto cada (ora, deve-se caber mais em um cd), por quê não zapear em busca de um bom programa pela televisão a cabo?
Afinal, como diria Chico: “... amanhã há de ser, outro dia”.
Publicado por Vec ;) em 2:41 AM ¦
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Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
Crônica atual
- É o Brito? Por favor, gostaria de falar com o Brito?
Nona sinfonia de Beethoven.
- Brito falando.
- Ei Brito, é o Reinaldo. Comprei aquela televisão de plasma ontem, tá lembrado?
- Televisão de plasma?
- É, aquela.
- Sei, diga. Precisa de algo?
- É que eu realmente acho que ela veio com problemas de fábrica. Sabe, não consigo ligá-la.
- Checou todas as conexões? Tá tudo plugado?
- Tá tudo plugado. Já conferimos, eu e meu filho de doze anos.
- E nada? Rapaz, que coisa estranha.
- Né.
- Quer que eu mande alguém pra conferir? Algum técnico?
- Já checamos tudo, Brito.
- Bom, traz ela aqui de novo. Vou abrir um pedido com o gerente para ver o que podemos fazer. Se não tiver jogado a notinha fiscal no lixo, podemos até realizar uma troca imediata para o senhor.
- Posso levar amanhã? É que hoje tem balé da minha filha e ainda nem me arrumei.
- Pode, claro. Temos um prazo de garantia de até sete dias após a compra. Mas tome cuidado com o que já ligou, pode dar mais algum problema. Pelas dúvidas, já desligue hoje.
- Ok. Trabalha amanhã à tarde, certo?
- À tarde e à noite.
- Estarei aí com o produto, então.
- Abraço.
- Aquele.
Desligou o telefone. Retirou a televisão primeiro, e guardou-a na caixa.
Depois removeu os cabos que já havia conectado. Juntou-os com os pacotinhos que ainda permaneciam na embalagem e continham os fios de tomada.
Publicado por Vec ;) em 12:02 AM ¦
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Quinta-feira, Janeiro 01, 2009
”Mas nada disso vale fala...” – Já diria João
Eu tenho o hábito de, enquanto minha santa genitora caminha pelo shopping em busca dos mais novos modelitos aguardá-la na principal livraria do local. Pois bem, como os dias nos quais isso se passa são muitos, eu fiz alguns amigos por lá. De vendedores, clientes e até os proprietários, conheço quase todos.
Numa dessas tardes recentes, um destes meus amigos me atentou a respeito de algumas mudanças nas capas de fim-de-ano que figuram as revistas mais vendidas do país.
É, ou era, quase regra: todas trazem em seus interiores uma matéria que relembra os fatos que marcaram o ano: a tão bendita “Retrospectiva dois-mil-e-tanto”. Porém, curiosamente, este ano o foco das publicações foi alterado. A maioria agora publicava não uma retrospectiva, e sim uma perspectiva.
Como é de praxe, achei a informação interessante e ao chegar em casa peguei-me filosofando sobre ela.
Cheguei a duas possíveis conclusões: ou o ano foi deveras ruim para ser relembrado ou o ser humano capitaliza mais um produto abstrato: a esperança. É uma idéia deveras lucrativa e ousada; porém é mais assustadora que real.
Tivemos um ano de crise mundial, de um Brasil futuramente potência, o pré-sal (como bem diria meu professor de geografia), o ano de Obama, aprofundamento de conflitos religiosos, a aposentadoria de Fidel, etc. A nível global, o ano até que foi bem penitente.
Mas o maior erro da imprensa ao publicar tais perspectivas de um futuro – dificilmente- melhor, bifurca-se em duas vertentes: primeiramente, o ano foi ruim ao observarmos uma esfera global, não necessariamente a nível pessoal de nossas vidas. Meu ano, por exemplo, foi excelente, e tenho certeza que não sou o único que pensa assim. E também, a população brasileira já está muito atenta aos que tentam fingir-se de profetas de um mundo melhor e preocupam-se mais com a realidade momentânea que com o futuro.
Em resumo, tais alterações veladas nos objetivos da imprensa brasileira revelam um belíssimo jogo sociológico que aparentemente não vingou.
Só tenho a parabenizar um povo brasileiro cada vez menos enganável.
Publicado por Vec ;) em 4:10 AM ¦
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Domingo, Dezembro 21, 2008
“Pra onde, senhor?”
Os períodos de festas seriam muito melhores se não fossem exatamente iguais todos os anos. A não ser o bracinho do bonequinho de neve hi-tech recém inventado que se mexe, é sempre aquela mesmíssima decoração reaproveitada no shopping, dedos calejados pela troca de lampadazinhas chinesas que sempre queimam, cueca branca pra dar sorte e aquela tia infalível que sempre aparece com uma sementinha de romã pra chupar e alojar - nojentamente - na carteira.
Não, eu não odeio o natal. E muito menos o Réveillon. As datas, o que comemoram e a proximidade em que se realizam ainda tocam magicamente a criança que reside em meu coraçãozinho. O problema é que o ser humano capitaliza tudo: comida, amor, paz - e as festinhas de final de ano.
Um tempo atrás eu tive o prazer de estar nos Estados Unidos num período pré-festas. Este, inclusive, é o pior: os preços ainda estão exorbitantes. Não sei se visitei os locais equivocados, mas, por lá, o frenesi era um pouco menos evidente que o que observamos em nossas terras. A não ser pelos copos de café (não vem ao caso a "marca") decorados com um belíssimo "Happy Holidays", os shoppings não davam a mínima pra decorações e afins; nem os parques temáticos estavam alarmantemente transformados com esse período que se aproxima. Eles devem ter se cansado de tanta vermelhidão.
De volta às terras verde-amarelas, gostaria de ser acalmado com a esperança de que um dia um abraço e reais manifestações de afeto e carinho substituam a imagem daquele Papai Noel lado-a-lado com a oncinha mais famosa do Brasil. Porém, ser humano que sou, também adoro ganhar presentes. Esse é nosso problema.
Como não posso presentear os leitores deste blog com alguma lembrancinha simples em agradecimento pela paciência, tolerância e compaixão com este pobre estudante neste ano recém-completado da página, e em virtude das tais festas-tema-do-texto-de-hoje, deixo aqui meus votos de tempos mais felizes aos que não os tiveram neste ano; e aos que tiveram, que continuem plantando sorrisos pelo mundo afora. Pode parecer clichê - eu adoro clichês - mas cada ação que fazemos hoje pode representar muito daqui a alguns anos. E assim, contribuímos para o nascimento de um ser humano mais valioso.
Muito obrigado!
Publicado por Vec ;) em 11:42 PM ¦
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Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
“Retórica dos namorados...”
Logo após assistir ao primeiro capítulo da nova minissérie da Rede Globo, “Capitu”, animei-me a dissertar sobre esta nas linhas levemente críticas que seguem.
Baseado – literalmente – no romance não-homônimo de Machado de Assis (“Dom Casmurro”; talvez este um dos que mais admiro em toda nossa cartilha literária), a minissérie e a equipe que a produz realmente mostram a vasta compreensão da obra e de sua intenção.
Magistralmente, o diretor Luiz Fernando Carvalho apresentou ao Brasil nesta pré-madrugada de terça-feira uma burlesca visão fantasiosa deste roteiro temporalmente realista. Recheado de visões sórdidas, recursos teatrais, desenhos incríveis e igualmente rara fotografia, a memória do narrador machadiano mostra-se como é qualquer memória humana: regida pelo portador, disforme e atemporal.
A atípica riqueza visual observada é tão vistosa até então que os devaneios simbólicos – e presentes no livro – do narrador muitas vezes resumem-se em breves recursos imagéticos: vide a tatuagem no braço da jovem Capitu ou uma sombra de Bento (em sua fantástica idade adulta) que vaga pelas cenas como se observasse minuciosamente cada detalhe da história.
Faço meus votos que essa série permaneça dessa maneira encantadora até seu suspiro final. Assim, majestosamente, Carvalho irá atingir um patamar artístico ainda ausente na sala de troféus da televisão brasileira. E eternizará, tão necessariamente modernos, aqueles “olhos de ressaca” que desde que imortalizados por Machado, seduzem o Brasil.
Publicado por Vec ;) em 10:13 PM ¦
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Sexta-feira, Novembro 07, 2008
A beleza que não está nos olhos de quem vê
O ser humano não difere-se dos outros animais somente por possuir um polegar opositor. Ele é um dos únicos seres vivos que habitam nosso planeta que utilizam-se do furor visual – entenda-se beleza – para escolher seus parceiros.
O fato é que esse conceito nem sempre é bem definido na mente humana. Há vários tipos de beleza, e é inútil tentar enumerá-los. Porém os mais comuns são aqueles que viajam de boca em boca em lições moralistas: beleza “interna” e beleza “exótica”, por exemplo.
Contudo, a beleza é uma primeira impressão. A beleza manifesta-se ao primeiro olhar, e restringe-se a ele. Ela se torna inviável, no entanto, quando o ser humano confunde seu olhar com um sentimento nato: o tão conhecido e difamado “amor”.
Amar não somente cega. Amar transforma.
Aquele que já foi capaz de amar um dia sequer na vida sabe que a beleza que todos vêem em quem amamos (ou ninguém vê, há todos os tipos de casos) torna-se ínfima. Dizer “você é linda (o)” se torna algo tão casual que não faz mais o efeito desejado.
E o que é mais torturante: o amor verdadeiro nunca acaba. Uma vez que ocorre, sempre ocorrerá.
Mas há sempre um “porém”. Há pessoas que amam e não são reciprocamente amadas. Nesse caso, a beleza torna-se fator fundamental de admiração entre essa pessoa e a outra. Sempre explícita e de forma exagerada são as formas de manifestação desse árduo desejo de nunca mais ter que elogiar os dotes físicos das pessoas para obtê-la. E sim, puramente, tê-la por amor.
A beleza é eterna; todos os tipos de beleza são eternos: eles nunca deixam de existir. O que muda é a forma de se sentir, inconscientemente, a beleza. Sabe-se que o amor confunde mais que qualquer outro sentimento; felizmente nos torna, porém, escravos de algo mais que uma harmonia perfeita de rosto.
Pobres são os que não conseguem se libertar desse conceito pífio de beleza e amar por essência. Parafraseando Vinícius, os “cegos” que me perdoem; mas amar é fundamental.